terça-feira, 10 de janeiro de 2017


COLETÂNEA DE CONTOS
ENSINA-ME A MORRER 
                     
                   Copyright© Ronaldo Soares de Oliveira 

                   
Área de anexos
     Todos os direitos reservados. Vedada à produção, distribuição, comercialização ou cessão sem autorização do autor e a citação de fonte e autoria do texto. Os Leitores poderão imprimir as paginas para a leitura pessoal. Os direitos dessa obra não foram cedidos.  (Oliveira, Ronaldo Soares)







           Título:                                 Ensina-me a Morrer   -     Coletânea de Contos
           Autor e Imagens escolhidas por                        Ronaldo Soares de Oliveira
           Diagramação:                                                                           Honório Vieira 
           Local:                                                                               Alvorada/ RS/Brasil
           Participantes da capa:                                   Flávio Moura e Roberta Diniz
           Capa:                                                                                           Flávio Moura                
           Contatos com o Autor:                                           telleronaldo@gmail.com
           Telefone para contato:                                                         (51) 9-8474-0903  






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                                     Breve Biografia

  RONALDO  SOARES  DE  OLIVEIRA,  gaúcho  -  jornalista  profissional  (registro12.151/51/2-RJ) e blogueiro estudou na Faculdade de Comunicação da PUC-RJ. Foi repórter nos seguintes jornais: "Jornal dos Sports - RJ"; "Última Hora - RJ"; "Tribuna da Imprensa - RJ"; "Jornal de Hoje (Nova Iguaçu-RJ)" e no jornal-escola “O Sol”. E ainda no Rio de Janeiro, com um grupo de idealistas fundou o jornal nanico "Boca da Noite", cuja boca carecia de publicidade e faliu. Em Alvorada/RS, escreveu matérias para o "Jornal de Alvorada" (do editor Laudir), uma das quais criticou, severamente, os "bispos" pentecostais por estelionato e manipulação de centenas de crentes. Criou, ainda, o alternativo "Balconet", que também faleceu por inanição publicitária. E, nos anos 90, quando a internet era quase desconhecida e o celular um objeto de luxo, inventou o TELERECADO com o auxílio de dois orelhões da CRT, um "pager" da Mobi, uma máquina de escrever Olivetti e três garotos que, de bicicleta, entregaram milhares de mensagens ao longo de 3 anos. Aí o celular chegou com força e a aventura acabou. Colabora no "Portal do Jardim Algarve" escrevendo a coluna "Crônica do TeleRonaldo", sobressaindo-se a matéria "Mulher, a Redenção Fora do Paraíso" francamente feminista. Mantém o blog CUSPINDO NA CHUVA.BLOGSPOT.COM.BR e o e-mail TELLERONALDO@GMAIL.COM - Celular (51) 8474-0903 / RS







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 (telleronaldo@gmail.com)
                                                     ÍNDICE

AGRADECIMENTOS .................................................................................................

E-MAILS AOS VENTO................................................................................................

A ESPERA..................................................................................................................
                   
O ÚLTIMO ORELHÃO..............................................................................................

ENSINA-ME A MORRER .........................................................................................

VIAGEM NO TEMPO PARA ENCONTRAR CABRAL ..........................................

CHICO BUARQUE ESQUECEU DAS "TENEBROSAS TRANSAÇÕES"..............

DIVINA PROSTITUTA ..............................................................................................

OS PONTEIROS .....................................................................................................   .

AS MENINAS DE CABELOS VERDES ...................................................................

A LONGA NOITE DOS MENDIGOS .......................................................................

UM HOMEM SÓ, DOIS TERNOS E DUAS CAMISAS IMPECÁVEIS .................

SULCOS & RUGAS....................................................................................................

A VIDA NÃO TEM FUTURO....................................................................................

UM MORTO PRECAVIDO, MAS NEM TANTO ... ..................................................

FRANJINHA .............................................................................................................

UM OLHAR PROFUNDO ZELANDO PELO PLANETA .......................................

PALAVRAS.................................................................................................................

O TODO PODEROSO É UM HOMICIDA................................................................

ESTUPROS, UMA BOA LEI E UM JUIZ CONTRADITÓRIO...............................


                                                       AGRADECIMENTOS

A Coletânea de Contos DIVINA PROSTITUTA foi concebida rapidamente - muito rapidamente - como costumo pensar/escrever; mas não poderia deixar de expressar um comovido agradecimento à pessoas mais que especiais: os craques em informática  Flávio Moura (que iniciou) e Honório Vieira que formataram a coletânea com admirável prazer; à especial amiga Ariel Martins que, em algumas madrugadas, semeou importantes opiniões e à jovem médica urologista Luciana  que vi uma única vez, na Santa Casa de Porto Alegre, e que me emocionou pela extrema delicadeza havida numa consulta. Não é por acaso que a obstinada e delicada personagem Luciana, do conto "O Último Orelhão"tem o seu nome. Lamentavelmentedepois daquele atendimento, nunca mais a encontrei.  À companheira Maria Amélia Chaves e Família, com incentivos inestimáveis, e em especial a filha Líbera Oliveira Chaves que leu releu as narrativas com incansável esforço. Os críticos de cinema Goida e Enéas de Souza, pela franqueza e especialmente o segundo que indicou-me o raríssimo caminho das editoras. Ah, uma menção especial para a visionária e íncentivadora Cláudia-Mata que conheço apenas virtualmente mas desejo abraçá-la pessoalmesnte. E à gata Nêga-Parker, minha fofa gatinha que se esparrama no teclado do computador enquanto escrevo...


                                                            SINOPSE                                       

  OS DESERDADOS DA SORTE     

 A Coletânea "Ensina-me a Morrer" é uma deliciosa e surpreendente coletânea de contos que espero agradar
a todos os gostos; nem todos, é claro... De maneira ágil, permitindo que o leitor saboreie o desfecho de cada parágrafo sem mistério ou complicações, mas com indescritível prazer. A leitura flui como a calmaria de um sereno riacho para, de repente, transformar-se numa caudalosa correnteza sem machucar as margens do seu raciocínio. Esses 20 contos permanecerão na memória afetiva do leitor e o farão refletir sobre a condição humana. Principalmente dos deserdados da sorte. Grato!  Ronaldo S. Oliveira.



    DIVINA PROSTITUTA                                                                                         conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira


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Ela entra seminua no quarto mal iluminado. Aparentemente, nenhum sinal de vida. Aos poucos, gemidos de satisfação enchem o ambiente. O homem de meia-idade, paraplégico,  exulta  com  a  chegada de Ana Clara. Com voz suave, ela o cumprimenta e lhe dá um suave beijo na face. Ela toma a iniciativa estreitando-o contra si. E inicia uma das sessões programadas para a semana.

Já agora, nua, Ana Clara ergue uma das pernas do seu "cliente" (entre aspas por que ela não gosta da palavra "cliente"). Ana Clara prefere a palavra irmãozinho. E é assim que ela trata os seus muitos irmãozinhos. Ela aceita uma oferta mínima pelos seus serviços, quase uma esmola; e se a família não tem recursos, Clarinha - como todos a tratam - nada cobra.

Persegue os passos de São Francisco de Assis, como devota e praticante. Só que, ao invés de repartir o pão, Clarinha reparte o seu corpo. A igreja Católica ao saber disso, passou-lhe uma reprimenda pública divulgando no jornal a "imoralidade dos atos", no que foi seguida pelos pastores evangélicos…

Ao que Clarinha deu de ombros justificando o que faz como uma obra da mais alta humanidade... E se Deus existe - afirma - estou mais perto dele que estes religiosos hipócritas. E ergue a perna inerte do seu irmãozinho praticando-lhe um delicioso boquete, seguido de uma estimulante penetração. O que ela consegue cavalgando o parceiro com comovente habilidade... Após alguns minutos de santificada paciência, o irmãozinho geme de tesão e ejacula.

Clarinha não abandona a cama rapidamente como uma profissional convencional. Ela passa as mãos com suavidade sobre o corpo do parceiro, beija-o pelo rosto, relaxando-o... Só então dá por encerrada a sua missão. Despede-se e  vai ao  encontro  do  familiar do  irmãozinho,  quando  recebe módica compensação; e segue a sua inusitada rotina. Mas há uma conspiração em andamento contra Clarinha. 

Pastores influentes que dominam - e muito - as consciências das pessoas da pequena cidade do interior determinam uma virada na vida de Clara. Após os cultos, os pastores se deslocam em procissão até à frente da casa dela e passam a hostilizá-la: "Acabem com a Messalina!"; "Basta de Imoralidade!”;  "Esta  Mulher  Ofende  a  Deus!";  "As  Famílias  que  Recebem  os Serviços de Clara são Impuras!" E o cartaz mais agressivo dizia: "Pro Inferno os Aleijados de Clara!" Só faltava jogá-la numa fogueira. Se bem que alguns fundamentalistas bem que gostariam... Sua casa foi apedrejada e sua saída à rua era um tormento.

Para  a  tristeza  dos  seus  irmãozinhos,  Clarinha  teve  que  parar  suas atividades. Eles entraram em depressão e muitas famílias ousaram levá-los, furtivamente, a lugares insuspeitos ao encontro de Clara... Mas também não durou muito. Foram descobertos e a punição foi bárbara: os doentes foram impedidos de sair  de casa e Clarinha embarcada, à  força,  num  trem  de  destino  ignorado. A cidadezinha, para a alegria dos pastores, ficou em aparente paz. Os comentários cessaram e os paralíticos, estigmatizados, ficaram trancados em casa…

Passaram-se 4 anos e, súbito, um terremoto devastou a cidade, aleijando parte dos moradores. Penosamente tentavam reconstruir suas casas. O que mais se via nas ruas eram pessoas em cadeiras de rodas. Entre os voluntários que desciam do trem lotado de socorristas e material de sobrevivência, uma figura conhecida: Clarinha pronta para ajudar. De óculos escuros, ninguém a reconheceu.

Enfermeira  de  recente  formação,  Clara  não  descansava. Mas sabe-se  lá como, alguns dos antigos irmãozinhos a reconheceram. E a notícia se propagou. E os tetraplégicos, paraplégicos e feridos terminais reuniram-se no que restou de um templo e decidiram: "vamos chamar Clarinha para diminuir as nossas dores!" E a aclamaram como Santa Clara dos Desvalidos! E muitos irmãozinhos pediam, 
discretamente, que...
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                                                A ESPERA                                                                                                                          conto autobiográfico registrado por Ronaldo Soares de Oliveira  
                             
                                           Resultado de imagem para alguém sozinho na multidão acenando

Eles estavam a menos de seis metros de distância um do outro, num terminal de ônibus. Ambos de capuz, tremendo de frio; ela mal conseguiu vislumbrar o rosto que lhe solicitou as horas. O ônibus dela já ia dar partida quando ele suplicou para o motorista que lhe desse apenas dez segundos, tempo necessário para debruçar-se sobre a roleta e jogar um bilhetinho para ela.

Agradeceu ao motorista e acenou para janelinha onde ela estava. Cabeça descoberta, cabelos longos despreocupadamente despenteados, ela acenou alegremente; mostrando um par de olhos verdes seguidos de um sorriso alvo e tímido.

Com essa perda de tempo ele perdeu o ônibus, mas não se arrependeu. O seu bilhetinho dizia, em letras apressadas: "Menina encapuzada de alegre sorriso - ele se encantara com o sorriso que vira - ficaria feliz em corresponder-me contigo. Só tenho e-mail. Nada de importante tenho a revelar, por isso não tenho Facebook. Envie o seu e-mail e vamos ser amigos! Boa viagem e desejo-te os mais lindos sonhos!" Debaixo rabiscou o e-mail.

Ela, curiosa, ansiava chegar em  casa para digitar algumas palavras para aquele misterioso rapaz.  Não  tão  rapaz assim.  Ele  tinha  cabelos  grisalhos  e a mesma idade de Richard Gere, 53 anos. Mas estava longe, muito longe do charme do famoso ator. Era professor e se aposentara precocemente por conta de um AVC que o deixara levemente manco. Levemente. Usava discreta bengala de aparentes
pequenos nós de madeira; igual àquelas que os exploradores ingleses apareciam nos filmes...

Ela escreveu no seu e-mail: "Oi! meu nome é Leirá, tenho 23 anos, curso Engenharia e adoro ler e curtir música. Você me encontrou num momento difícil. Passo por uma dor quase insuportável; perdi minha cadelinha vitimada pelo câncer e estou em dúvida sobre o meu namorado... que é um tanto sufocante”. E você? Fala- me um pouco de ti.

O e-mail de Odlanor não demorou, com informações básicas, mas sinceras. Ele  pedia  o  celular  dela,  acrescentando  que  não  era  sufocante  e  aceitaria  ser apenas  um  amigo  cordial,  ressaltando  a  diferença  de  idades.  Adorava  o  bom cinema, na telona e na telinha, e também a Fórmula 1 quando havia brasileiro correndo. Contou que a sua fantasia era idealizar uma "máquina do tempo", tal era o seu temor pela velhice. Acrescentou que amava a Música Popular Brasileira. Especialmente Paulinho da Viola; o incrível Raul Seixas; Caetano; Gil; Bethânea; Elis; o falecido Reginaldo Rossi (observa que "Mesa de Bar" é um hino); Martinho da Vila; o maravilhoso Bezerra da Silva (e seu espirituoso "Sequestraram a minha Sogra"); o genial Milton Nascimento e o inigualável Chico Buarque com a sua trágica “Construção”, “Mulheres de Atenas” e “Cálice”, entre tantas obras-primas...

Mas a exemplo de Leirá, que já havia confidenciado sua admiração pelo Rock, Odlanor demonstra o seu gosto pelo Jazz e, consequentemente, pelo Rock. Não se esquecendo de mencionar Chuck Berry (um dos pais do formidável rítmo); Little Richards; as inesquecíveis Mamma (lésbica assumida "naquele tempo", que elevou o Jazz às alturas); a inigualável Billy Holliday; Ela Fitzgerald; o genial e falecido B. B. King; Rick Valley (o portorriquenho que compôs "La Bamba", outro hino); e, finalmente, ressalta o "genealíssimo branco" Elvis Presley. E solta uma frase de efeito, talvez para impressionar: Elvis vive!

Como Leirá talvez tenha observado, Odlanor era "antigo" pelas suas preferências. Se bem que ele salientava que a música boa não tinha idade. Leirá negou o celular, por enquanto o e-mail bastava - disse. “Realmente, gosto das mesmas coisas que você, especialmente escrever. E observei a sua discreta e elegante bengala. Diferente daquelas chamativas de metal. Um charme! Onde a conseguiu? Foi num filme? Quanto a estar longe da figura do Richard Gere, é muita
humildade sua. O cabelo branco e farto como o dele já é uma semelhança... Não para levar-te à Hollywood, é claro (he, he, he)”,  sentenciou brincando.

Noite-sim-noite-não o papo virtual continuava sem a mínima insinuação de um reencontro... O papo virou hábito, sempre de madrugada, até o galo cantar. Um dia ela deu uma dica: estaria apreciando a Parada Gay, domingo, no Parque Farroupilha. Ele foi e com alguma dificuldade avistou-a  com  aquele encantador cabelo desajeitado e longo. Mas não ousou aproximar-se, temendo a rejeição. À noite, pelo e-mail habitual, ela perguntou o que tinha havido? Ele respondeu que simplesmente não a encontrou devido à multidão.

E  seguiram  trocando  e-mails  revelando  identidades  e  diferenças  que  os ligava. Consumiram-se seis meses. Ele viajaria por um longo período e, com medo de uma relutância, fez mil rodeios para, finalmente, pedir que no dia da sua partida ela comparecesse, às 10 horas, na Esquina Democrática, centro de Porto Alegre. Ele estaria lá para se despedir... 
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                           O ÚLTIMO ORELHÃO                                                                       conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira

             Exibindo orelhao.png                            

O vilarejo estava situado nos cafundós da Amazônia. Luz elétrica não existia e celular não alcançava a região. Ou melhor, havia um orelhão ali plantado há mais de 10 anos, funcionando sem a necessidade de fichas... Mas ninguém o usava, pois não havia para quem ligar. E o aparelho era cuidado como uma relíquia, pois não tinha quem lhe fizesse manutenção; e aparentemente estava esquecido de qualquer empresa  de  telecomunicações,  talvez  por  considerarem  algo  obsoleto  ou  por piedade daquela gente tão miserável.

Até que um dia formandos de uma faculdade de medicina e de odontologia lá chegaram na condição de voluntários. Deveriam ficar por duas semanas, mas lá permaneceram seis meses tal era a necessidade de saúde, especialmente bucal. Reduziram a mortalidade infantil, ensinaram métodos de higiene e alimentação saudável com a construção de hortas que entusiasmou a todos...

Luciana, que era urologista, ensinava hábitos até então desconhecidos pela comunidade. Promovia aulas de sexologia desmitificando tabus como a virgindade. Suas aulas eram frequentadíssimas e ela conseguiu atrair os homens, sempre arredios. Como única ligação com a civilização, o orelhão era concorridíssimo. Os voluntários faziam fila para comunicar o adiamento de sua permanência aos familiares e à universidade. Mas se queixavam de que o aparelho estava a cada dia mais fraco, quase inaudível...

Quem mais entendia do orelhão era Pedro, um homem simpático de meia idade, de poucas palavras e personalidade impenetrável. Suas únicas palavras, sempre, eram sim e não; não importando a pergunta. Era contraditório. Se lhe perguntassem se o aparelho estava bom, ele poderia dizer que sim e, no minuto seguinte, responder que não... Pedro morava só, distanciado dos demais, fazia a
sua própria comida e, surpreendentemente, sabia ler e escrever. Acredita-se que tenha aprendido, há uns 20 anos, com um explorador inglês que também deixou-lhe de presente “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, único livro que Pedro lia e relia com obsessão.

Luciana,  a  urologista,  soube  da  história  de  Pedro  e  resolveu  procurá-lo, apesar dos senões de toda a comunidade. Ainda assim ela foi. A porta da choupana não se abriu mesmo com as muitas batidas desferidas pela médica. Luciana fingiu que desistira e a uma certa distância, por detrás de uma árvore, observou que o solitário Pedro a vigiava por uma fresta da janela. Ela deu meia volta e  rumou resoluta, em direção à choupana. Bateu, bateu, bateu e nada... Então, sabedora da história do livro único, pôs em execução uma ideia: começou a emitir conceitos sobre o livro "A Origens da Espécie" que, surpreso, Pedro respondeu enriquecendo os tais conceitos. Para, em seguida, abrir a estreita janela para ouvir e se fazer ouvido...

Luciana pediu que ele abrisse a porta para que pudessem conversar melhor. Ele pensou, pensou; demorou uns cinco minutos e, com reservas, abriu a portinhola. Não havia onde Luciana pudesse sentar e ela puxou conversa assim mesmo. Hesitando em responder, ele disse que só falaria sobre o livro ou, então, que ela fosse embora! Ela concordou, mas perguntou se ele gostaria de ler outros livros? A resposta foi um sonoro não; repetindo que aquele seria o único livro da sua vida. E, assim, passaram mais de três horas lembrando passagens do livro... Pedro dava uma aula sobre a "Origem das Espécies", afinal ele conhecia o livro de Darwin de cor.

Quando Luciana insistiu que era interessante ele tomar conhecimento de outras obras, aproveitando a sua inteligência, ele se irritou e mandou-a embora. Ela perguntou  se  poderia  voltar  no  dia  seguinte?  A  resposta  ficou  atrás  da  porta fechada. Mas foi um progresso. Ela conseguira quebrar o gelo daquele homem solitário.  A comunidade e os colegas de Luciana quase não acreditaram. No dia seguinte, sabedora dos hábitos de Pedro, ela foi procurá-lo. Ele acordava às 5 horas, um pouco antes do sol nascer, tomava um banho de rio e preparava seu próprio café, ou melhor, chá, que consistia de 2 bananas, 1 laranja, 1 naco de coco e uma caneca de chá...
Luciana o surpreendeu quando ele ainda não terminara o desjejum numa mesa improvisada. Antes que Pedro reprovasse a sua visita, ela se adiantou e perguntou de um fôlego só: "E o que foi feito do Beagle, o valente navio de Darwin?" A pergunta o embaraçou ficando sem resposta. Luciana, então, com muito tato observou: "É pra isso que servem outros livros..." E o que aconteceu com o navio? - pergunta Pedro cheio de curiosidade. Ela conta o destino do navio reafirmando a utilidade da leitura. Pedro lamenta não ter outra cadeira e oferece a sua. Luciana agradece e diz esperar que ele terminasse o chá. Depois, sem que Pedro se dê conta, eles já estão falando de outros assuntos... E, animadamente, ela convence- o,  já sem muita persuasão, a conhecer os seus colegas.

Um dos voluntários, que é psicólogo, surpreende-se com a inteligência de Pedro, considerando-o nada menos que um superdotado. Todos os voluntários trouxeram, além dos livros técnicos, boa literatura nacional e estrangeira. E de bom grado presentearam Pedro com muitos livros, que ele foi devorando com um apetite invulgar. Sempre a seu lado, Luciana foi dirimindo as dúvidas que surgiam... E, às vezes, Pedro inventava dúvidas só para ficar ao lado dela. Faltavam apenas três dias para os voluntários retornarem. E Luciana comunicou a Pedro, prometendo enviar-lhe outros livros. Ele lamentou a decisão e pediu que ela ficasse, o que seria impossível - ela disse -, argumentando que tinha inúmeros compromissos em sua cidade. Além, é claro, dos relatórios que a universidade esperava.

Duas lágrimas discretas verteram dos olhos de Pedro e outras foram escondidas de Luciana por seus rápidos passos em direção à mata... E lá ficou, sem voltar para choupana. Luciana o procurou, em vão. Finalmente, depois de uma triste reunião de despedida, em que aquela pobre comunidade do fim-do-mundo demonstrou todo o seu agradecimento aos voluntários, eles embarcaram na lancha que os levaria ao continente...
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                         E-MAILS AO VENTO
                                              conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira                                                            


Paraplégico, 42 anos, imobilizado da cintura para baixo. Não bebia nem fumava e fazia exercícios todas as manhãs. Exercício improvisado, mas pra valer. Erguia pesos acima do tronco inúmeras vezes, o  que lhe proporcionava um físico definido. Sua aparência era de um cara de 30 anos e a voz quase inaudível resultava de não ter com quem falar, a não ser sua tia, com quem morava, mulher de poucas palavras e cara amarrada.

   Adquiriu um computador e se encantou com os e-mails, essa possibilidade fantástica de enviar "cartas" em segundos. Como tinha mobilidade nas mãos, decidiu passar e-mails; mas para quem? Não conhecia ninguém além do pátio da sua casa. Ia arriscar um encontro no face book mas desistiu. A possível candidata descobriria, mais cedo ou mais tarde, a sua idade e condição física. Como inscreveu-se num concurso de contos decidiu tornar-se escritor e personagem. Criou uma conta em nome de "aurea@gmail.com" e iniciaram um relacionamento...

1º DIA 

    Querida Áurea, descobri o teu nome e o teu e-mail no face book, sem fotos ou qualquer descrição física. Acho isto bom. O que interessa é o íntimo das pessoas. Também nada falarei da minha aparência, embora não seja um monstro. Apenas vamos conversar. Com afeto, o amigo Otávio.
   - Otávio, pra mim está ótimo. Vamos conhecer o nosso íntimo, "disse Áurea." Há um ano não tenho namorado, pois o único que tive foi assassinado num assalto; e desde então sou menos que um fragmento do tempo em que era feliz. E você, fale-me da sua vida?

  - Pouco ou nada tenho a dizer de mim. Me constranjo, mas admito que sou virgem, não por motivos religiosos, não fui padre; e até considero um absurdo impor tal condição aos padres. Será que o Criador, se é que houve um Criador, concordaria com esse celibato obrigatório? Então por que Ele colocou o sexo no homem, cheio de apetites? Não vejo necessidade em ter religião.  Mudemos de assunto, querida Áurea, até porque eu sou a pessoa menos indicada para falar disso. E tu não pensas em um novo romance?

   - As cicatrizes ainda não se fecharam, caro Otávio. Me concentro no meu trabalho de atendente num hospital e no curso de enfermagem que em breve concluirei. No mais, é um cineminha caseiro na tv ou no youtube; aliás, te dou uma dicaassiste no face um filme maravilhoso que vi 4 vezes: "As Mulheres do 6º Andar". É um drama-comédia, mais drama que comédia, tem até uma pitadinha de luta de classes. A trilha sonora, de uma leveza incrível, é absolutamente envolvente. É a história, de mulheres pobres espanholas que emigram para a França para ter uma vida melhor como domésticas; tem situações e diálogos impensáveis.

O patrão de uma delas, um burguezão conservador, vai repensando o seu conservadorismo estimulado pela postura de Maria, a única das empregadas que fala francês. Ele tem uma esposa completamente fútil, que só pensa em compras e festas e acaba se apaixonando por Maria. Ao separar-se da mulher, sai de casa e vai morar num quartinho vago do 6º andar. Quando os dois filhos vão "exigir" que ele volte para o apartamento da família, ele simplesmente fala que nunca foi tão feliz como naquele pequeno espaço. Não vou contar todo o filme, mas a cena em que o patrão convida Maria para viverem na Espanha, é impagável. Ele diz que trabalhará como pedreiro ou carpinteiro, ao que Maria o interrompe dizendo: "com essas mãos lisinhas, sem calos...?"  É imperdível, querido Otávio! Você gosta de cinema?

   (Visivelmente feliz pelo querido dito por Áurea) responde: vou assistir hoje mesmo "As Mulheres do 6º Andar" mas, antes mesmo, estou emocionado com o teu entusiasmo. Também adoro cinema. Ela interrompe Otávio e afirma:  - taí uma bela identificação entre nós. Não sei de você, mas eu prefiro ver filmes na tela grande do cinema. É completamente envolvente. Desconversando, Otávio pensa na sua condição de cadeirante e balbucia apenas: - Acho que sim, acho que sim...

Ainda falando sobre cinema, Áurea lamenta quando a sessão acaba e o cinema é iluminado. "Sinto que enfiei o pé na realidade e, se o fiscal não pedir pra sair, fico para a outra sessão." 

2º DIA

  - Bom dia, Áurea! Que tipo de preconceitos você tem? - Como assim? ela pergunta surpresa. Nada, nada, desconversa Otávio. - A propósito, como foi a sua infância ? - Nada feliz.Tornei-me órfão de mãe aos 8 anos. Ela tinha traços muito delicados e possuia uma franjinha encantadora; é o que me lembro. Meu pai disse que ia viajar por uns dias, deixou-me com a minha avó, e sumiu para sempre. A minha avó, viúva e pensionista de um salário mínimo e meio, enfrentava severas dificuldades mas possibilitou-me concluir o 2º grau. Ainda menor de idade trabalhei como doméstica em duas casas e na segunda fui violentada pelo filho do patrão. Cidade do interior, longe de tudo, o rapaz também era menor e tudo ficou por isso mesmo. Consegui emprego no comércio e tive um namorado por quem me apaixonei. Mas não durou muito. Ele sofreu um assalto, já te falei, foi baleado e morreu.

Você nunca teve namorada, Otávio?

Uma falta de energia providencial evitou-lhe a resposta.

À TARDE DO MESMO DIA

    - Oi, ÁureaConheces aquele ditado que fala da dificuldade de fazer retornar o excesso de pasta de dente para o tubo? Pois bem, agora após o almoço o excesso foi grande. Deixei cair o tubo e a minha tia pisou em cima. E ela é bem gorda; imagina o prejuízo. Era o único tubo que havia em casa...

Não, não é possível tamanha coincidência, observou Áurea, "o meu tubo acaba de cair no vaso sanitário. A sorte é que eu tinha dois estocados. Nunca mais vou deixar o vaso aberto. Somos feitos de coincidências, meu querido. Precisamos nos conhecer. Otávio emudeceu. 

- Áurea, tenho uma gatinha, a Preta, que é uma fofura. Sempre que uso o computador, ela se esparrama em volta do teclado e até dá "enter" com o rabinho. Tens algum bichinho de estimação? - Tenho um cachorrinho vira-lata que adora uma galinha que apareceu aqui no quintal. Ele é muito novinho e está crescendo na companhia dela. Dormem juntinhos. - Ah, então você mora numa casa. Isto é ótimo. Eu vivo confinado num apartamento térreo. 

NOVO CONTATO, JÁ À NOITE 

E o Carnaval de 2016, Otávio, como foi? - pergunta Áurea. "Assisti o maravilhoso desfile das Escolas de Samba do Rio. Foi algo deslumbrante, incrivelmente inventivo."

- Também achei, disse Áurea.  Antes que ela completasse o pensamento, Otávio lembra, criticamente, uma cena marcante: - Uma das madrinhas de bateria da Escola de Samba Peruche, de São Paulo, foi brutalmente empurrada e chutada para fora da pista porque tentou tirar a roupa como protesto. Só teve tempo de mostrar os seios nus. Logo os seguranças da escola a agarraram e a chutaram para fora da pista. De salto alto, a pobre jovem desequilibrou-se e caiu. Por que esta hipocrisia num desfile em que grande parte das mulheres sambam seminuas, querida Áurea?   
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Depois se soube pela imprensa que ela desejava colocar a frase Fora Dilma! na frente do tapa-sexo. E digo mais, salienta Áurea, "quem desconfia fica sábio; por isso penso que a moça queria produzir um efeito muito acima da nudez ou sexo; o que a 'zelosa' escola de samba não podia permitir... Num bloco essa irreverência seria possível, pois os blocos não estão amarrados a 'compromissos' com o governo. Já as escolas mamam nas tetas do poder."

Otávio vibra com a observação de Áurea: "Como estamos identificados! Pelos comentários nas redes sociais verifiquei que muita gente não entendeu a atitude da moça..."Mas me diga uma coisa, Áurea, de onde você tirou esta bela frase  'quem desconfia fica sábio'?" Deixa pra lá - ela responde orgulhosa -  "foi de algum livro..."

Otávio retoma o assunto: "Houve outra exceção. A Escola de Samba Mocidade de Padre Miguel desfilou com o enredo "O Brasil de la Mancha, sou Padre Miguel" criticando asperamente a corrupção. Foi um embate literário entre Dom Quixote e os corruptos. E o mais audacioso: a escola mostrou uma carroça cheia de corruptos, sem citar nomes, que por um ótimo artifício todos estavam invisíveis;  mas identificavam, claramente, dois personagens pelas roupas: um terninho vermelho personificando claramente Dilma e uma luva preta, faltando um dedo, indicava Lula. Mas ainda é pouco protesto para mais de 20 escolas desfilando nos sambódromos do Rio/São Paulo", arremata.

Outro detalhe, ressalta Áurea: "os negros, fundadores do samba, estão sumindo. As madrinhas de bateria, com raríssimas exceções, são brancas famosas que só aparecem nas comunidades durante o Carnaval. A presença negra ainda se impõem na bateria, porta-bandeiras e mestres-salas. Não se trata de um sentimento racista; é só uma constatação..."

3º DIA

Otávio salienta que já falaram de cinema, carnaval, corrupção. Quase nada sobre romance. Então faz a pergunta presa na garganta: "Quando poderemos nos encontrar, Áurea? - Um grande silêncio. "Moro em outra cidade, bem longe, Otávio. Mas vamos marcar um dia, tá?" Otávio se apressa e combina o dia:  "Sábado que vem vou te esperar na rodoviária," com o que Áurea concorda...
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     Você já analisou os horrores que Deus cometeu segundo o Velho Testamento da Bíblia?
   Foram centenas de genocídios. Fantasiosos ou não, a não reflexão por parte do povo
    crente deixa bem claro que uma das origens da violência está nos textos bíblicos vindos  de um livro que é lido sem que se discuta seriamente o conteúdo,
manipulado por "pastores" e perigosamente pernicioso... Por isso,
  O TODO PODEROSO 
É UM HOMICIDA
                                                             conto-verdade registrado por Ronaldo S. Oliveira     
                               
                               
                                        Resultado de imagem para guerra santa e bíblica imagens

Era convictamente um cara sem fé. Decididamente sem fé. Mas sábado à tarde um sorriso iluminou a sua alma. Aliás, nem em alma ele acreditava. Achava o Senhor injusto e nada misericordioso: e lembrava uma passagem da Bíblia em que o Senhor condenava Eva e Adão pelo pecadinho de haverem comido o fruto proibido. Mas pera lá, se o Senhor é onisciente (sabe de tudo...) por que armar a armadilha do fruto proibido? Sentença nada bondosa, para um Deus de luz, que determinou para os homens "comerem o pão com o suor do seu rosto" e as mulheres, para sempre, "terem filhos com dor". Sentenças malévolas, indignas do "amadíssimo Criador".

A propósito de filhos, a humanidade seria descedente de "dois homens" - Caim e Abel -? já que Adão e Eva, segundo a  Bíblia, só tiveram filhos homens... Fica a interrogação para todas as igrejas,
particularmente homofóbicas? Os gays - tão combatidos pelos religiosos - adotam filhos legalmente, enquanto a Bíblia no caso de Caim e Abel deixa a questão totalmente obscura e nada explica para os crentes...

O  que,  ironicamente, não  se  cumpriu,  pois  as  mulheres, hoje, graças  à Medicina, via analgésicos, têm parto sem dor. E somente os trabalhadores "comem o pão com o suor do rosto", pois outros homens, os ricos, comem o pão (e o caviar) com o suor dos trabalhadores... Logo, a condenação do Senhor não se cumpriu.

'Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão.'' Frase encontrada na parede da cela de um prisioneiro judeu num campo de concentração.

Ele  ia  mais  longe:  todas  as  guerras  do  Velho  Testamento  e  o  famoso "olho por olho; dente por dente" poderiam ser substituídos por um ato de ternura do Senhor que, se quisesse, simplesmente poderia banir toda a violência da face da Terra. E os banhos de sangue acabariam... Nem haveria necessidade de "livre arbítrio", pois as escolhas do Senhor seriam de plena bondade até os nossos dias! E, assim, a sentença seria transformada em "bondade por bondade em dobro"... A propósito, Ele instituiu o "livre arbítrio", mas exterminava quem o desobedessece, segundo muitas narrativas do Velho Testamento... Ele  ia  mais  longe:  todas  as  guerras  do  Velho  Testamento  e  o  famoso "olho por olho; dente por dente" poderiam ser substituídos por um ato de ternura do Senhor que, se quisesse, simplesmente poderia banir toda a violência da face da Terra. E os banhos de sangue acabariam... Nem haveria necessidade de "livre arbítrio", pois as escolhas do Senhor seriam de plena bondade até os nossos dias! E, assim, a sentença seria transformada em "bondade por bondade em dobro...".

ARCA DE NOÉ: UM GENOCÍDIO PREMEDITADO

                                  Resultado de imagem para ARCA DE NOÉ

É o caso, se considerarmos verídica a fantasiosa construção da Arca de Noé! Imagine construir, por mais imensa que seja, uma arca que receba todos os animais da Terra? Pelas mãos de 8 membros da família de Noé (ele, a esposa, os 3 filhos e suas esposas; além de 78 pessoas "tementes à ira de Jeovah"!... A embarcação - segundo a Bíblia - media 137 metros de comprimento; 23 metros de largura e 14 metros de altura. Convenhamos, tais medidas seriam suficientes para abrigar 86 pessoas todos os animais da Terra, contando com os marítimos? É pura fantasia... mas que serve para manipular os crentes. Ah, e não consta que Noé tenha enfiado um dinossauro lá dentro... Até pela impossível convivência e...
                               ENSINA-ME A MORRER  
                                            conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira                                                                    
                                                               
Entreolharam-se e surpreenderam-se por desenvolver o mesmo passatempo... Mas vejamos a história deles. Saffira era o seu nome (com dois efes, ela  insistia),  tinha  27 anos  e  saíra  de  um relacionamento  com  um  fim  trágico. Ricardo, 54 anos, teve um matrimônio conturbado que não passou dos 4 anos. Foi aposentado precocemente por conta de um AVC que o deixou com a mão 
direita imobilizada.

De repente, decidiu que não mais perderia as tardes jogando damas com idosos na pracinha. Foi para o metrô e se encantou com a multidão. Entrava num vagão e descia quatro estações depois... Gostou e fez disso o seu passatempo diário. E adquiriu o hábito de perceber paqueradores; passageiros discretos; abusados, que se encostavam maliciosamente nas mulheres como quem não quer nada; ladrões, típicos por ficarem colados às bolsas dos passageiros ou espiando os desatentos que se esqueciam de vigiar mochilas e sacolas no chão... E, quando o marginal se preparava para saquear a vítima, ele entrava em ação tossindo na sua cara, fazendo-o desistir…

A vida de Saffira tinha um toque mais dramático. Aos 16 anos foi estuprada pelo padrasto. “Abrindo-se uma pessoa pode-se encontrar as mais tristes paisagens...” Assim ela se sentia em relação à violência sofrida. Saiu de casa e trabalhou como doméstica em várias casas. Concluiu o segundo grau, à noite, pelo Supletivo e passou a viver com a avó, que era paupérrima. Logo, em seguida, para evitar despesas foi para casa de uma tia, mas por pouco tempo. Num emprego pouco melhor, no comércio, conseguiu alugar um quartinho mais que modesto e até prestou vestibular para Matemática, que ela adorava... Mas não se classificou para a faculdade pública…

Teve apenas dois namorados e passou a morar com o segundo, por quem se apaixonou. Mas tudo acabou quando ele morreu prensado pela porta defeituosa de um vagão do metrô.  “A sensação desta morte sofrida se confunde, até hoje, com uma imagem que vai permanecer para sempre”, desabafa. Desde então ela nunca mais teve  qualquer  relacionamento  amoroso...  E,  após  o  trabalho, começou  a circular pelos vagões do metrô até às 22 horas e ia dormir. Para Saffira havia pouca ou nenhuma esperança por dias melhores.

A VIDA É COMO AS RODAS DE UM TREM.
                                                  NUNCA ESTÁ NO MESMO LUGAR

Descobriram-se  ao  descer  e  subir  dos  vagões  inúmeras  vezes. Apresentaram-se e entraram na lanchonete de uma estação. Solicitaram seus lanches: Saffira pediu chá preto com um pastel de cenoura, que não havia. Tomou apenas o chá. Ricardo pediu uma latinha de cerveja. Ela se definiu como uma “incompreendida”... E andar pelos vagões se tornou uma experiência muito divertida. Além do que – observava – “tenho salvado muitas bolsas...”.

Ambos  retomaram  o  trem.  E assistiram  a  uma  cena  inusitada: um  casal discutia ferozmente, chegando a trocar tapas, quando o rapaz começou a rasgar as folhas do que parecia ser um diário. Uma das folhas caiu aos pés de Saffira, que a recolheu. O papel dizia, em letras trêmulas, “preciso deixar-te. Não dá mais para aguentar...”. Tal leitura indicou o porquê da briga.  Saffira adiantou-se para intervir. Em seguida, chegou Ricardo. Eles argumentaram que a discussão era inútil, pois já haviam lido uma das razões da moça... Eu tenho experiência – arrematou Ricardo – “vivi quatro anos com uma mulher que eu amava e, de repente, tudo se desfez. A solução foi a separação, sem atritos...” Saffira foi mais direta e acrescentou que “quando um casal chega a este nível, incluindo tapas, é inevitável a separação.”

A reação não foi das melhores. O rapaz, apontando o dedo para o rosto de Saffira, disse raivosamente, antes de pular do vagão: “vai-te fuder!” deixando a mulher dele chorando. Pronto! Descobrimos outro “serviço de trem”... Vamos prestar solidariedade à moça – disse Saffira. Ricardo concordou. A jovem se chamava Angélica e devia ter uns 21 anos. Perguntaram na aonde desceria? A resposta os deixou perplexos. “Vou ficar andando neste vagão até às 23 horas, quando o Mário retorna para casa; pois não tenho a chave do apartamento.” Mas, então, você vai voltar para ele? – perguntou Saffira.  Sim, vou. Não tenho alternativa, respondeu Angélica. 

Saffira sussurrou para Ricardo, em tom de brincadeira: “que tal a moça juntar-se a nós nas trocas de vagões?” Ricardo deu um sorrisinho maroto e disse pra Angélica sentar-se, recompor-se e esperar. E assim foi. Às 23 horas, ela partiu para o seu drama rotineiro...

Ambos eram fãs de novela. “Algumas” com a qualidade do bom cinema, concordavam... Falando em cinema, ela diz adorar o cinema americano, especialmente  as  comédias  leves.  E  achava  interessante  sempre  haver  atores negros nos filmes. Mas admirava também o cinema brasileiro e citava “Tropa de Elite”, que assistiu duas vezes. Ricardo elogiava o cinema francês, principalmente o “antigo” (o qual Saffira, pela idade, não conhecera). Gostava das boas histórias, com uma pitada realista, das belas trilhas sonoras, da inesquecível Catherine Deneuve, Alain Delon... E aproveita para lembrar que Saffira tem “o narizinho deliciosamente empinado como a atriz francesa Juliette Binoche”. Pelo que, ela graciosamente agradece.

Ricardo aproveita a observação de Saffira sobre os negros no cinema americano e salienta que “as novelas e filmes brasileiros se parecem com produções dinamarquesas. Todos os atores são brancos, com raras exceções. Especialmente nas novelas...” Ao que Saffira admite que “nunca tinha pensado nisso, mas é uma verdade escandalosa.” Saffira observa, ainda, que no shopping onde trabalha raramente vê uma atendente negra nas lojas. No seu trabalho mesmo não há nenhuma. Ricardo lembra com amargura que um grande colega seu, negro, certamente um dos mais abnegados e inteligentes da empresa em que trabalhava nunca foi promovido. E quando “eu deixei a chefia devido ao derrame cerebral, a vaga que deveria ser dele foi dada  a um funcionário  reconhecidamente  menos qualificado...” E concluiu: “E mais da metade da população brasileira é de negros e mulatos...”

Foto:

Nunca haviam ido à última estação. “Sonho que na última estação vou encontrar lindos pássaros e anjos. E, assim, acabar com a minha tristeza”, desabafa Saffira. Ricardo, que era ateu (ou à toa, como brincava) disse que pássaros ela poderia encontrar, mas anjos nunca.  Ela era levemente católica e não gostou do comentário. Mas não chegaram a discutir, pois ambos não davam muita atenção para religião. “Depois da morte do meu namorado sou menos que um fragmento do que já fui...” – assim ela resumia o que sentia. Ricardo desculpou-se e, com um olhar meigo, diz que "a dor nunca se separa da memória..."
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                                                  CONTO -VERDADE
               CHICO BUARQUE ESQUECEU
          DAS "TENEBROSAS TRANSAÇÕES"
(texto de Ronaldo Soares de Oliveira, que adora o Chico e pede-lhe desculpas se o ofendeu.)

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Para o excelente Chico Buarque que não se exprime só para ficar mais rico. Que não compõe canções com subalternos fins, para atrair atrizes; para papar manequins; que não importa carro pra sair na Caras; que não pega seu fã pra Zé Mané; que arriscou o couro sob a ditadura; que da canção social não foge; não se exime; que muito embora tenha uma cara de bobo, não é nenhum boneco fabricado na Globo.

Quando os Renans proliferam, quando os Cunhas chovem, mirar-se no exemplo de Chico era melhor pros jovens. Pena que a juventude em boa parte esteja tropeçando na boca, rezando noutra igreja como que a confirmar a visão curta de fã, sentadinho no colo do sinistro Tio Sam. É difícil lutar contra tanta desatenção; contra tanta renúncia. Contra todo um sistema colonial e perverso, contra todas as forças do infindo universo.

Como arrostar o lixo que nos chega do frio? Sem vestígios sequer de uma virtude-brio? Bem ou mal, o Vietnam com todo o seu atraso na época, nos ensinou o que se faz no caso. Mas será que aprendemos? Levantaremos a saia quando o gringo safado invadir nossas praias? É de temer que um dia isso acabe numa zona; gerenciada, quem sabe, por madame Madonna.

Voltando ao grande Chico: é bonita a gratidão ao PT que um dia plasmou as idéias do poeta; mas quando Lula e o partido tornaram-se corruptos e foi virando...
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                              VIAGEM NO TEMPO PARA
                              ENCONTRAR CABRAL                                                                                                            texto registrado por Ronaldo S. Oliveira   
                                                                                                Imagem inline 1        
E eles foram encolhendo... encolhendo.... encolhendo...               
Era  um  cientista  de 35 anos. Obsessivo no que fazia, decidiu que faria uma "Máquina do Tempo". Trabalhou inúmeras noites e madrugadas. De dia cumpria 12 horas no emprego para compensar as folgas dedicadas ao seu projeto. Não se permitia tempo para comer adequadamente...  Estava magérrimo. Depois de anos, numa manhã cinzenta  ele concluiu a  Máquina. Estava  pronta. Reluzindo! Deixou um recado gravado anunciando o fato num canto do laboratório, pegou uma quantidade de comida e refresco desidratados e regulou a máquina para o século
16. Justo para o dia da chegada de Cabral no Brasil, pois era fascinado pelo feito do navegante português...

A   máquina   produziu   um   barulho   ensurdecedor   e   sumiu   rumo   ao desconhecido. Após uma semana, pousou serenamente. Algo deve ter dado errado, pois estava cercado de carros e edifícios. Do litoral cheio de índios da Era Cabralina, nada!

Camuflou a sua máquina e resolveu perambular pela cidade. De repente, viu- se defronte a uma vitrine espelhada e surpreendeu-se. Havia adquirido uma aparência muito, muito mais jovem. Aproximou-se de uma banca de jornal e leu numa capa a seguinte data: 20/10/1914! Viajara cem anos... E rejuvenescera! Murmurou decepcionado: "Que droga! Estou longe do Descobrimento do Brasil." E logo conformou-se, pois a sua  aparência perdera, pelo menos, uns 10 anos.

Perambulou pela cidade e, vaidoso, notou que chamava a atenção das mulheres...  E acabou parando, aleatoriamente, numa fila de bonde. Meio sem jeito, perguntou à jovem à sua frente que idade ela daria pra ele? Vinte e cinco anos,
respondeu a moça com naturalidade. O seu corpo estremeceu e ele observou que o leve grisalho do cabelo desaparecera. E encorajado pela transformação, arriscou um convite:  "Podemos  passear  um  pouco?"  Ela  concordou  e  eles  passearam  pela cidade e foram parar num bar. No momento de pagar a conta, surpreendeu-se com a recusa do garçom em aceitar suas notas. Notas de um século depois... Dinheiro totalmente desconhecido.

A jovem pagou a conta e ele foi explicando o inexplicável para uma incrédula ouvinte. Como argumento definitivo, levou-a até a Máquina do Tempo convencendo- a em parte. Ela, numa atitude ousada, pediu para ele acionar a máquina, "para dar uma voltinha..." Como ele tinha esperança de presenciar a aventura Cabralina, não pensou   duas   vezes   e,   desta   vez,   ajustando   os   comandos   e   relógios minuciosamente, deu a partida.

E algumas semanas depois, a uma velocidade espantosa, a nave pousou a 250 metros das caravelas. A Máquina do Tempo e as roupas do casal de tripulantes encantaram os índios e maravilharam os ...
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conto-verdade
ESTUPROS, UMA BOA LEI 
E UM JUÍZ CONTRADITÓRIO
          (Texto de Ronaldo Soares de Oliveira, publicado em 02/12/2014, no blog "Classificados Grátis e muita Bronca")


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A violência sexual contra as mulheres (leia-se estupro) nasceu com o "decobrimento do
Brasil". Neste primeiro momento os portugueses estupravam as indígenas até valendo-se
da poligamia daquele povo. Com a importação dos escravos negros caçados na África foi a
vez da mulher negra servir à cozinha e à cama do senhor igualmente estuprada.

Durante certo tempo no Brasil, há cerca de 25 anos, o marido tinha direito de usar o corpo
da mulher (mesmo contra a vontade dela); e há uns 10 anos no Direito Brasileiro o
estuprador que casasse com a estuprada, sua vítima, ou ela casasse com um terceiro estava extinta a punibilidade do crime. Ou seja, arranjando um marido para moça, estava tudo "resolvido". Então, o ministro Gilmar Mendes, do STF, derrubou esta lei absurda impedindo a extinção da pena, o que foi um grande ganho para o convívio social. 

Mas o ministro é um tanto contraditório. Neste ano de 2016, o mesmo magistrado Gilmar Mendes concedeu habeas corpus para o médico Roger Abdel Massih, condenado a 278 anos por 58 estupros contra pacientes suas durante tratamento de fertilização artificial. Diante dessa medida inusitada, a jornalista Mônica Iozza publicou no instagram a seguinte expressão de opinião: "Não sei o que esperar de Gilmar Mendes"... dentre outras farpas não configuradas como "crime de imprensa".

Foi o suficiente para o ministro Mendes processá-la e obter ganho de causa por determinação do juíz Giordano Resende Costa. A jornalista foi condenada a pagar
R$ 30.000,00! Pelo que centenas de pessoas, através das redes sociais, estão protestando. Mônica vai recorrer.

Quanto às mulheres espancadas, elas encontram socorro na Lei Maria da Penha que agora
ganhou um reforço: a mulher espancada que comunicar a agressão à polícia já não pode 
retirar a queixa e o marido espancador é obrigado a ficar distante da esposa por 300 metros.

De avanço em avanço a felicidade e segurança das mulheres está prosperando. Que o 
digam as feministas...



                                   
                                                       PONTEIROS
                                               conto registrado por Ronaldo S. Oliveira

                                          

O desfile de beleza estava terminando. As concorrentes confraternizavam com o público quando, de repente, falta energia por cinco minutos. E quando a energia volta... surpresa! Ninguém mais se reconhece. Todos estão com o mesmo rosto. E ninguém observa o fenômeno ou se dá conta de que houve ali um concurso de beleza.

Partem para as suas casas e encontram as ruas cheias de rostos iguais. E tudo segue normalmente. Ao pagar as passagens no metrô, os passageiros não notam que o rosto do funcionário é o mesmo do resto da fila... Os vagões mostram a visão fantástica de uma uniformidade incrível.

Casais de namorados se beijam e se apalpam e ninguém os reprime. Outros casais transam nas praças sem constrangimento. Não há pudor sobre o corpo ou o que dele façam. Não há repressão aos fatos naturais da vida. A violência é banida das televisões. Ausência absoluta de mendigos. A condição de
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                                              AS MENINAS  
                                     DE CABELOS VERDES
                                                                   conto registrado por Ronaldo S. Oliveira                     
                                                        

Em diversas cidades do mundo o fenômeno é o mesmo. Bebês  recém- nascidos são encontrados dentro de caixas de papelão à beira de estabelecimentos comerciais. Uma curiosidade: eles não têm genitálias. Nem qualquer orifício por onde possa sair fezes ou urina. Cirurgiões tentam fazer uma abertura para a saída dos dejetos e têm uma surpresa: sempre que os bebês querem fazer alguma necessidade, uma abertura se abre na sola dos pés. Outra particularidade: as criaturas têm cabelos verdes. E todas falam e andam precocemente. Mais tarde, pelas suas feições, os cientistas definem estas crianças como meninas.

A comunidade científica não sabe o que fazer. São 200 espalhadas pelo mundo. Outra curiosidade: a África tem o maior número delas. E aprendem 100 vezes mais rapidamente do que as crianças normais. Elas rapidamente chegam às melhores universidades, onde são disputadíssimas...

Observou-se que elas possuem uma voz fina e meiga, e quando em situação de risco se torna absolutamente estridente, passando dos 200 decibéis. Já adultas, evitam qualquer contato amoroso com homens normais e têm o poder de auto engravidarem-se. Este ato é secretíssimo, mas, a muito custo, descobre-se que isso ocorre num ritual mental. E por dominarem o conhecimento de modo brilhante, assumem  os  melhores  cargos  em  qualquer  empresa,  inclusive  em  postos  de governo e alguns comandos militares...

Um antropólogo, observador atento, inicia uma pesquisa minuciosa das estranhas criaturas. E verifica que os fetos produzidos pela auto gravidez, recebem
grande parte do conhecimento disponível ainda no útero. A gestação também é rápida, de apenas três meses. Outra coisa: aparentemente dóceis e meigas, se provocadas demonstram uma agressividade incontrolável.

Com esses dados, um antropólogo chega à conclusão de que  a humanidade está diante de gravíssima ameaça. E faz um longo relatório, escondendo uma cópia com a sua namorada. Depois, dirige-se ao...
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                            A LONGA NOITE 
                                   DOS MENDIGOS   
                                                    conto registrado por Ronaldo S. Oliveira           

                                      



Era uma pracinha aparentemente calma. Mal cuidada. Com arbustos e plantas elevados a mais de 2 metros. Suficientes para esconder uma pessoa. No caso, muitas pessoas. Eram cinco mendigos que faziam dali a sua morada numa precária cabana. Noite de sábado. O dia mais esperado por eles. 9h45m e nada. Todos apreensivos...

Do outro lado da cidade - a parte rica - cinco mulheres de classe média alta preparam-se para sair. Uma delas ainda encontra obstáculo para a saída. O marido questiona muito para aonde ela vai todos os sábados às 22 horas? Uma das amigas sugere o seguinte: "diga-lhe que você, com as suas amigas, todos os sábados prestam  caridade  aos  sem-teto.  E  que  esta  tarefa  meritória  se  estende  até  às
23h30m." O marido desconfiado acreditou...
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UM HOMEM SÓ,
 2 TERNOS E
2 CAMISAS
IMPECÁVEIS...

                                   registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
                                                                                       
       Vivia só. Absolutamente só. No seu pequeno quarto havia o essencial: um fogão a gás. Mesa e duas cadeiras. Uma cama menor que a de casal e maior, um pouco, que a de solteiro. Um banheiro minúsculo que ele construíra para o locador descontar aos poucos no aluguel... Ah! e um guarda-roupa com coisa pouca e, pasmem!  Dois  ternos alinhadíssimos, 2  camisas  impecáveis  e gravatas de  grife. Para quê? Já veremos...

Alberto recebia a irrisória aposentadoria de um salário mínimo, mas a sua mesa era farta, fartíssima. Ele fizera um curso de culinária que colocava em prática todos os dias só para si. Nunca faltava atum ou carnes nobres (nunca de 2ª), azeite importado, bom vinho e, não raro, caviar...

Por generosidade, em todos os almoços dava boa parte da alimentação para um casal     paupérrimo que     tinha     dois     filhos pequenos     e     moravam num quarto ligeiramente maior que o seu. Sua vida era pacata e duas vezes por semana uma mulher de uns trinta anos passava a noite com ele fazendo sexo...

Três vezes por semana vestia o melhor terno e uma impecável camisa e ia em  direção  ao  maior  supermercado  da cidade.  Ele sabia  que  havia  câmeras vigiando por todos os cantos. Ou, quase todos. Na espaçosa padaria coberta por um toldo que impedia o acesso das câmeras, era ali que Alberto realizava o seu pequeno saque. Ele retirava do carrinho alguns dos poucos produtos e acomodava em   bolsos   extras o   que poderia caber   sem   ser   notado...   Depois   dirigia-se com elegância ao caixa e pagava por dois ou três artigos bem baratos...  
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                                                        SULCOS & RUGAS
                                              conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
                                                                  
                                                           


Ele era um cara feioso. Desses que nenhuma mulher queria olhar. Por que existe  a  feiura  no mundo,  perguntava-se?  Conseguia  relacionar-se  sexualmente apenas com prostitutas.  E ainda elas faziam comentários zombeteiros... Ele não aguentava mais tanta discriminação…

Resolveu, então, lançar seu olhar para as mulheres velhas. E viu que estava dando certo. A maior quantidade de sulcos e rugas tornavam as mulheres mais receptíveis. E ele acostumou-se com este relacionamento. Virou um vício.

E a felicidade estava estampada no seu rosto e nas mulheres que com ele tinham relações. E não eram apenas relações sexuais. Eram, sobretudo, afetivas. Antes de penetrar neste universo, ele tinha aversão às rugas e considerava os sulcos, verdadeiras feridas. Mas foi mudando de conceito e passou a contemplar os sulcos como minúsculos rios de onde vertiam lágrimas. E rugas como plácidas planícies com leves acidentes...

E  os familiares  e  os  poucos  amigos  indagavam-lhe  de  onde  vinha  tanta felicidade? Ele respondia com naturalidade que "surgia de sulcos e rugas". E que estavam à disposição de qualquer um que abandonasse os preconceitos contra a velhice. E afirmava: "a velhice é bela"! Os conceitos dele caíram na boca do bairro até que uma equipe de TV foi fazer uma reportagem sobre o precário saneamento da região. E ficou sabendo da existência do homem-feio que adorava sulcos e rugas. Não deu outra. A história foi para a TV e logo se tornou viral na internet.

A ideia se espalhou de tal maneira que do bairro ganhou a cidade; o estado e o país inteiro. Logo, logo a publicidade entrou em ação. E propagava produtos que prometiam "os mais belos sulcos e as mais sensuais rugas". A ideia chegou ao exterior e o homem feio teve a agenda lotada por entrevistas de rádio, jornal e tv. E logo virou exemplo de homem sedutor, protagonizando exemplo de conquistas de rugas e sulcos...
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      A VIDA NÃO VALE A PENA...
                                 conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
                                                           

Regina adormecera sobre a bancada do computador. Às 7 horas da manhã sua mãe lhe trouxe o café com um belo sanduiche. Regina olhou, olhou e nada bebeu ou comeu. Olhos fixos na tela do micro, ainda ligado, assim prosseguiu por horas. No almoço nem olhou o prato. A mãe e os irmãos notaram, ainda, que ela se entusiasmava  quando  havia  propaganda  de  bebidas  e  comida  na  tela...  E  ela parecia se satisfazer…

E assim passaram os dias, as semanas, os meses, os anos...  Regina sempre com aparência sadia não desgrudava da tela. E quando lhe tiravam, à força, ela desfalecia e seus sinais vitais iam ao nível mais baixo. Chamaram um médico e ele não obteve qualquer diagnóstico. A mãe, por intuição, a reconduzia para o computador. E a jovem voltava à vida. A máquina nunca mais foi desligada...  Certa vez quando faltou energia, Regina desmaiou imediatamente. E só se restabeleceu com  o  retorno  da  força.  Providenciou-se  uma  bateria  potente  para  que  não ocorresse nova falha.

O caso chamou a atenção da comunidade científica e Regina foi transferida para um moderno laboratório onde lhe deram um supercomputador. A máquina em nada lhe mudou os hábitos alimentares. Mas como possuía um vasto programa científico, especialmente de física e matemática, isto aguçou o interesse da jovem. Aliás, não tão jovem assim. Ela já passara dos 40 anos e continuava com o rostinho de  menina.  Este  fato  chamava  a  atenção...  E  as  habilidades  que  Regina
desenvolveu com a matemática e, especialmente, a física foram espantosas. Ela fazia diagramas de descobertas alarmantes.  E um fato continuava intrigante: se "desacoplada" do computador ela desfalecia, mas conservava intacta  a memória do que aprendera.

Levaram-na aos mais importantes simpósios, inclusive à NASA, e ela ministrava o seu conhecimento através de um telão, por escrito. Pois não dizia uma palavra. Seus olhos não mostravam expressão alguma. Mas era uma celebridade. Tornou-se visitante das mais importantes universidades do mundo. E chegou a ser alvo de um sequestro fracassado por parte de uma potência internacional... Sua segurança foi redobrada e seu livro mais famoso, "A Vida Não Tem Futuro", vendeu milhões de exemplares tornando sua família muito rica. Mas eis que um cientista muito ligado às atividades dela descobriu algo novo: Regina estava amando... Ou assim parecia. Ela ficava radiante quando surgia na tela a imagem de um rapaz humilde, negro, originado de uma publicidade onde ele aparecia empurrando um carrinho de supermercado para um casal que o aguardava na porta do carro. Ela salvara esta cena e a repetia incansavelmente...  
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                 UM MORTO PRECAVIDO,
                  MAS NEM TANTO 
                                   conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
                                       
Toda   a   vida   Alfredo   provou   ser   um   cara precavido. Até demais. Embora jovem, não havia passado dos  40,  possuía  dois  seguros  por  morte.  Para  proteger  a família, dizia. Mas o exagero maior ele cometeu três meses antes da sua morte. Morte, aliás, provocada por um detalhe.

Alfredo tinha pavor de ser enterrado vivo. Leu tudo sobre doenças que deixavam as pessoas desacordadas, como mortas, para ressuscitar depois. Fez, então, inúmeras experiências com potentes celulares que pudessem em suas ligações, ultrapassar quaisquer barreiras: túneis, subsolos, morros, banheiros de parede dupla, minas profundíssimas, etc. Tudo para pedir socorro. E um dos aparelhos - modelo japonês ultramoderno - passou em todos os testes.

O segundo passo foi a construção do caixão, confortavelmente acolchoado e provido de um pequeno sistema de ar-condicionado. E mais: provisão de alimentos desidratados, desses que os astronautas usam (para um mês); reserva de água, oxigênio e lanterna com pilhas “intermináveis”... Enfim, algo bem planejado. Pra nenhuma morte botar defeito.

Resumindo, a tal da "Síndrome da Falsa Morte" aconteceu. Alguém sugeriu a doação dos órgãos de Alfredo, que tudo ouvia, mas estava inerte, estremeceu! Nãooo façam isso! Pensou inutilmente... Mas a ideia logo foi afastada apostando na crença da ressureição de Alfredo e em socorrer-se das providências por ele elaboradas...

A missa foi de corpo presente e Alfredo gostou das palavras do padre, menos quando o sacerdote disse: "segue em paz para os braços do Senhor, meu filho!" Alfredo tentou se mexer, mas não conseguia falar um ai! No cemitério, suportou mais uma churumela de discursos. Foram cinco, fora a fala do padre. "Quanta mentira! Não fui tão bonzinho assim." Irritou-se, terrivelmente, quando sua mulher discursou, em lágrimas, sendo amparada pelo vizinho Joaquim - que ele sempre
desconfiou estar de olho em Josefina... Canalha! Pensou... O pior foi aguentar o discurso da sogra ("aquela jararaca!") que sempre o infernizou...
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                                                   FRANJINHA 
                                                              conto autobiográfico registrado por Ronaldo S. Oliveira                                                      
                               
         Iara tinha a mesma simpatia da atriz Anne Hathaway

Fim  da  tarde  na  Praça da  Alfândega, Porto Alegre. Começa a chover fininho. Eles se conheceram da maneira mais imprevisível. Ela perguntou-lhe  onde ficava a Casa de Cultura Mário Quintana e ele apontou para dois quarteirões.  E, em seguida, fez-lhe  uma sugestão ou  mais precisamente  a  dica de  um  filme"As Mulheres do 6º Andar." Ela o interrompeu: "Acho interessante, mas sou turista, estou a  passeio,  mas  prometo  assistir  pela  internet.  Como  é  mesmo  o  seu  nome?” “Ronaldo e o seu?" "Iara, de São Paulo, e estou louca pra conhecer Gramado para onde viajarei amanhã..."

Ele a levou à Casa de Cultura Mário Quintana e ela ficou maravilhada com o prédio neoclássico, as exposições, as salas de cinema todas com filmes de qualidade, mas que, infelizmente, as sessões já haviam começado. Bateu muitas fotos  com  um  tablet  e  pediu  que  ele  registrasse  uma  ao  lado  do  poeta  Mário Quintana que olhava semi-risonho de um pedestal de muita simplicidade.  Foram belos momentos. Finalmente, sairam e sentaram-se num dos muitos barzinhos da Rua  da  Praia  bem  pertinho  da  Casa  de  Cultura.  Foi  aí que  ele  apelidou-a  de "Franjinha", inspirado na graciosa franja que teimava cair sobre os seus olhos muito meigos. Ela gostou do apelido e prometeu conservá-lo. Possuía um bom emprego, era   culta  e  casada  com  um  homem  de   50   anos,   com
2  filhos   e  nada ciumento....  Não quisera filhos, e optou por viajar sempre no período de férias. Conhecera Santa Catarina, Curitiba, um pedacinho do Nordeste, Manaus e breve quer ir à Bahia, ao Uruguai e ao Chile. Se bem que o sonho mesmo é curtir a Turquia e a Grécia. Paris, Londres ou os EUA nem pensar... Prefere países bases da civilização.  Tão embevecido ele estava com aquele breve relacionamento que nem  perguntou  pela  sua  profissão.  Agora, ele  tem  um  palpite:  psicóloga  ou antropóloga.

A "saideira" foi num gracioso barzinho no alto do viaduto da Avenida Borges de  Medeiros, onde comeram  um  delicioso feijãozinho  (especialidade  do  bar). E deixaram seus nomes num livro oferecido pela casa. Lá está até hoje: "Franjinha & Ronaldo passaram por aqui"

Ele, vivendo um relacionamento cordial com uma mulher com quem não faz sexo há três anos (ela sofre de uma síndrome que nega o sexo). Vivem em quartos separados como "irmãozinhos" e tem 3 filhas adultas. Pelo celular colocou Franjinha em contato com uma das filhas que terminara de ser aprovada no vestibular. Ela a felicitou  e  incentivou-a  muito.  Depois,  passearam  e  conversaram  com  muitas pessoas nas ruas que ela achou muito espontâneas.

Ela era magrinha, sem maquiagem ou tatuagem aparentes e não era exatamente bonita. Mas o jeito manso de se expressar, o papo agradável sem afetação e a franjinha tocando insistentemente os olhos muito negros faziam-na encantadora. Fora dos padrões…

Ele ainda mancava a perna direita por conta de um AVC que tivera. Estava precocemente aposentado e fazia fisioterapia e hidroginástica com obstinada aplicação. Usava uma bengala discreta, de junco,..
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                                UM OLHAR PROFUNDO 
                                ZELANDO PELO PLANETA
                                                                   conto regisrado por Ronaldo S. Oliveira




Seu  olhar  era  penetrante. Como duas amêndoas verdes, fitava o interlocutor sem desviar do que via. E era particularmente bonito. Desligada das coisas da beleza, até demais para a idade, ela desconhecia ou fazia força para ignorar o fascínio que exercia... Os pais desconfiavam, desde cedo, as coisas diferentes que Ariê fazia: se alguém perdia um objeto, ela encontrava imediatamente.   Ou   se
alguém estivesse em dificuldades, ela resolvia com preciosos conselhos.

Sempre foi assim. E com o passar dos anos esta qualidade, despretensiosa, só foi crescendo. Passou num concurso público em 1º lugar e no vestibular repetiu o feito.  Para  melhorar  o  orçamento,  entrou  num  concurso  televisivo  respondendo sobre os feitos de Júlio Verne e chegou à etapa final, entusiasmando-se de vez pela Engenharia que cursou com brilhantismo...

Aí a sua vida deu uma guinada. Engajou-se no movimento ambientalista e a sua principal colaboração não era a agitação, mas a solução de sérios problemas que afetavam a vida na Terra... E, então, mergulhou radicalmente num ambicioso projeto contra os combustíveis fósseis. E o seu alvo principal era, nada menos, que a exploração do Pré-Sal e suas consequências a 7.000 metros de profundidade...

Avessa à publicidade, era discreta em suas pesquisas. Mas chegou um momento em que ser discreta era impossível. E qualquer publicidade, naquele momento, era benvinda. Até porque acabara de descobrir junto a uma rede de ambientalistas internacionais um fato impressionante: a compra, fraudada, do tubo destinado a alcançar o Pré-Sal constituído de material absolutamente inadequado para  aquele  procedimento.  Como  consequência  da  corrupção  que  envolve  a Petrobras, o tubo de baixa qualidade, barato e superfaturado, não aguentaria a pressão a tal profundidade e o desastre seria incontrolável, indescritível, trágico...

Ariê e seus companheiros, com a cumplicidade de parte da tripulação de um navio holandês, subtraiu uma pequena peça do complexo de tubos. E a levou para laboratório.  E  constataram  a  qualidade  inferior.  Pela  TV,  jornais  e  internet  Ariê tornou-se porta-voz do iminente desastre. Ela disse que a fragmentação do tubo espalharia o petróleo incontrolavelmente por imensa parte do oceano e a retenção do  jorro  a  7.000  metros  seria  quase  impossível.  O  mar  ficaria  apodrecido  por décadas e décadas. E o desastre alcançaria outros oceanos...
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                            PALAVRAS...
                     conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
                                                    

Escolheu ao acaso um nome no Facebook.  Clicou justamente um que tinha o desenho de uma pomba e não de uma figura humana. Abaixo do desenho, apenas o nome Jaqueline.     Ele    não    tinha    preconceito    de beleza  ou qualquer outro preconceito. Não exigiu uma  foto  de  Jaqueline.   E  começaram  a  se corresponder.

Tornaram-se confidentes seis dias por semana. Um diazinho  livre para repensar o que comentaram... Falavam de tudo: felicidade e tristeza de cada um. Ele também jamais enviou uma foto. Iam se identificando cada vez mais, só por palavras. Ambos adoravam o bom cinema, especialmente Chaplin, Tarantino e o brasileiro Glauber Rocha. Curtiam o cinema francês antigo e moderno.  Eram fãs  da Juliette Binoche. Só discordavam em religião: ele era ateu (ou à toa, como dizia). Ela agnóstica. Mas ambos acreditavam que, após a morte, as consciências se encontrariam na eternidade. Nada com sabor de religião...
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CACHAÇA DO BOLO

NÃO  CONFUNDIR COM A "CEREJA DO BOLO..."

( PAPO RACISMO )

Texto embriagado de indignação de Ronaldo S. Oliveira


       Pergunto: gordo ou negro não bebem cerveja? Claro que bebem. E muito. Agora, encontrem estas duas personagens, nitidamente, nos anúncios de cerveja na TV? Você vai encontrar, sim, DESFOCADAMENTE e em menos de 1 segundo de duração. Só para constar... Mulheres negras e gordas, mesmo branca gorda, então, nem pensarPara a publicidade ELAS NÃO EXISTEM! Isso é RACISMO. Não tem outra conceituaçãoSerá que esta atitude parte da cabeça dos fabricantes de cerveja ou dos publicitários? Seja lá de quem for, pau neles!


VAMOS DAR NOME AOS BOIS


A SKOL, nos seus filmes, negros, negras, gordos e gordas raramente aparecem. 
A BRAHMA mostra, desfocadamente, uma mão segurando um copo, uma cabeça balançando ou mulatas seminuas sambando, aí, com visibilidade. E no seu elenco tem astros negros como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.

Já a "nossa" POLAR (que é daqui!) os anúncios parecem ter sido feitos na Noruega...

Na KAISER, a aparição é mínima. O negro passa tão rápido que é difícil notar! Até um esquimó aparece, nitidamente, como o "garoto-propaganda" Kawaka...

 
A HEINEKEM produz filmes com grande sofisticação mas com um único e solitário negro (não desfocado)... 

A ANTARCTICA repete muito a imagem machista da "mulher gostosa"... Associando a cerveja à uma "loura sexi", despudoradamente sexi...



A SCHIN, que perdeu o ZECA PAGODINHO para a BRAHMA, desconhece  GORDOS e NEGROS... Pelo menos com nitidez...

 DEVASSA-NDO CONCEITOS

       "É PELO CORPO QUE SE CONHECE A VERDADEIRA MULHER NEGRA". É assim que a publicidade da DEVASSA tentou promover a sua cerveja preta, a Tropical Black, seguida de uma ilustração hipersexualizada. A frase, sexista e racista, segundo o Movimento Negro e Organizações Feministas, levou o Ministério da Justiça a processar administrativamente a Brasil Kirin, do Grupo Schincariol. Pergunta-se se a mulher negra "normal", gorda ou magra, não supersexualizada deixaria de ser verdadeira?!
   Segundo o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), "é direito básico do consumidor a proteção contra a propaganda abusiva. Na sociedade de consumo, a publicidade é um indicativo do padrão ético adotado pelas empresas para oferta de produtos e serviços. Não se pode admitir que para vender alguma coisa, sejam utilizadas mensagens discriminatórias que reforcem estereótipos de gênero e étnico-raciais e que aprofundem as desigualdades". 

 Pelas suas normas "a propaganda de bebidas alcóolicas não pode ter como principal apelo a sensualidade, no que os fabricantes de cerveja exploram o corpo da mulher como "símbolo", "a mulher-ideal", "a mulher-ilusão", "a mulher-hipersensualizada" a serviço dos desejos masculinos, cujos efeitos pedagógicos são altamente negativos para garotos e garotas reduzindo à coisificação da mulher. Especialmente para jovens em construção de uma visão crítica onde a sua capacidade de fazer escolhas é facilmente seduzível pela propaganda". E pedir uma Devassa - assegura a publicidade - é "pedir a dose certa de segundas intenções".
      Já que a lei demora uma eternidade para disciplinar esta terra de ninguém, este blog não dará trégua pra eles! 

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